AKIRA E KANYE WEST NA FANTASIA ULTRACAPITALISTA DO OCIDENTE


Texto de: Vinicius Pereira

Arte de: Fresh Gvbs

Revisão de: Tiele Kawarlevski


Akira, a obra de distopia que descreve um futuro ultracapitalista e consequentemente fascista, de Katsuhiro Otomo, foi originalmente publicada em mangás em 1982, mas se popularizou com o filme de 1988 e se tornou uma referência para todo o cenário "pop" dos anos 90, influenciando diretamente as principais obras que consolidam o gênero cyberpunk. Antes de entrarmos em detalhes sobre a obra em si, queria destacar suas influências no ocidente, tratando um pouco do seu impacto. Pessoalmente, vejo em Akira uma importância similar ao que foi o universo de Tolkien para a fantasia, de modo que traz para o gênero uma personalidade singular que o diferencia, por exemplo, da ficção científica. Sendo assim, a sua influência já fora notada há muito tempo.


Por isso, dentro deste parágrafo pode ser que, para os mais antenados, as coisas fiquem repetitivas, mas tentarei, ao máximo, trazer referências menos comentadas. Como já sinalizado, Katsuhiro nos entrega um futuro caótico de um Japão com medo de uma nova destruição em massa, como as explosões criminosas dos EUA em Hiroshima e Nagasaki. No entanto, no filme, essa destruição se daria por uma – ao que parece para os desavisados – entidade chamada Akira, acusada como causadora de uma nova guerra mundial. Embora a trama gire em torno do mito de Akira, de uma entidade destruidora e que, ao mesmo tempo, poderia purificar um ambiente decadente da NeoTokyo, é justamente essa roupagem que se tornará um marco na história da cultura pop e renderá as mais diversas homenagens e plágios do Ocidente. A ambientação do filme nos leva para 2019, momento em que Otomo esperava que a tecnologia estaria avançada de uma forma faraônica; assim, o filme se compõe por meio de muitas luzes, neon, LED, hologramas e, ao mesmo tempo, muita alienação e caos social. A forte "estética" do filme rendeu uma certa admiração do Ocidente. Ao lado de Blade Runner (1982), reinventou a ficção científica e popularizou o que hoje é conhecido como cyberpunk, muito difundido pelo recém lançado jogo Cyberpunk 2077. Antes de entrarmos na parte política da obra Akira ou, melhor, o que caracteriza o uso de punk no nome do gênero, destaco o impacto que Akira teve na música, mais especificamente, na música do Kanye.


Akira foi para Kanye uma influente inspiração criativa, que ele nunca deixou de referenciar, seja explicitamente, como fez com o clipe de Stronger ainda no seu álbum Graduation de 2007, ou mesmo 808s & Heartbreak (2008), no qual temos, de forma ainda tímida, músicas no mesmo estilo de Stronger, que possuem um estilo "futurista" ao se ouvir; no entanto, é um pouco mais do que isso: a escolha do nome do álbum faz referência a uma “caixa de ritmos” (ou drum machine) Roland TR – 808, usada para poder criar as formas dos instrumentos sintetizados, que ao lado da sua voz, robotizada no auto-tune, criaram uma nova forma de se fazer música. Desse modo, percebemos o futuro em Kanye, assim como vimos em Akira, em músicas como Heartless, Welcome to Heartbreak, RoboCop e Paranoid.


A maior inspiração de Akira para Kanye manifestou-se em 2013 com seu sexto álbum, o Yeezus. O álbum é, do começo ao fim, algo novo. Nele, um Kanye mais maduro com os sucessos dos álbuns passados sabe mesclar suas qualidades, com um som às vezes industrial, às vezes eletrônico, com alívios de R&B e soul. Yeezus, assim como Akira, tem a proposta de ser grande. O filme não se apega a desenvolver histórias complexas dos personagens secundários ou mesmo dar explicações ao caos que você vê no futuro, mas, em relances, você entende a dimensão maximalista da obra; o mesmo é feito com Yeezus. Kanye chega a usar inclusive uma sonoridade similar a da trilha sonora do filme, em uma parte lírica que alivia o violento início do álbum, nos interlúdios de "On Sight". Aqui, a intenção não é a de referenciar a obra, e sim, de mostrar o quão grande o álbum e Kanye são; o que se confirma com "I am a God" que também pode fazer referência ao roteiro do filme. Ouso dizer que a influência de Akira em Kanye se tornou parte da sua marca, sendo notada até no recente single "Wash us in The Blood" do tão esperado décimo álbum, Donda. Pode-se dizer isso tanto pelos elementos vocais e de mixagem trazidos de Yeezus, quanto pelo videoclipe visualmente agressivo, com elementos messiânicos (inegavelmente relacionados, também, com a fase cristã de Kanye). A intenção ao trazer Akira e Kanye foi a de mostrar o impacto que a primeira obra proporcionou, de modo a criar um efeito dominó: ao influenciar Kanye, Akira fez com que se renovasse a música. E Kanye fez como Akira, imaginou o futuro por meio do maximalismo.


O que faz de especial essa obra? Talvez, a capacidade de apresentar um novo conceito estético ou de novos elementos a um gênero – na época – recente? Deve-se, e muito, valorizar o processo de criação desse filme, que passa por um trabalho de animação incrível. No entanto, ele vai muito além disso, de uma obra contemplativa, em sua trama acompanhamos o jovem Kaneda, líder de uma gangue de motoqueiros, que parece apenas um adolescente inconsequente, mas Katsuhiro usa Kaneda como um fio condutor daquela sociedade, onde vemos um governo corrupto, ruas lotadas de propaganda, violência policial, protestos e messias. Kaneda não é só um jovem raivoso, mas sim, um jovem como muitos de uma sociedade sem perspectivas, sem emprego, marcada pela miséria, um jovem alienado na política ou nas questões sociais, que só conheceu o ódio e a adrenalina do perigo.


Como dito, o filme se passa no Japão de 2019, mas quando estava pensando sobre Kaneda, pensei em como isso se relaciona conosco, no Brasil de 2021; distante da "alta tecnologia" produzida pelos centros do capital, assistimos de casa, com os mesmos sentimentos de ódio, desespero e falta de esperança, um governo corrupto, ruas lotadas de propaganda, violência policial, protestos e messias. Ainda vemos alguns fazerem propaganda dos carros elétricos, a viagem espacial como o futuro e a civilização, ao mesmo passo que a periferia padece, servindo a matéria prima, sendo explorada e sem futuro. A estética, a roupagem do filme, são partes do contexto da trama, por meio do qual o bruto e o universal da obra brilham. A tecnologia não necessariamente iria se desenvolver como Otomo imaginou, talvez tampouco essa fosseakira-e-kanye-west-na-fantasia-ultracapitalista-do-ocidente sua intenção. No entanto, nos anos 80, não era absurdo pensar nos sentimentos vazios como produto do capitalismo, tais como a solidão, a falta de esperança e o desamparo, que hoje, mais do que nunca, se fazem presentes em todo o mundo.

 

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